domingo, 5 de fevereiro de 2012

CARA COROA

Imagem: foto de Mark Laita
via página The Modern&Contemporary Art no Facebook



Cara coroa

Onde o fraco
se acha o forte
e a crueldade
se oferece;
a misericórdia
é uma velha
 voz
 frágil e
 frouxa.
*
Santana de Parnaíba
3/2/12
NeyMaria Menezes



domingo, 1 de janeiro de 2012

RENOVO

*
Imagem: "Menino e pássaros"
de Mario Gruber

*

RENOVO

D’entre
a metade nada 
e a metade noite
partiu a nave-mãe,
no primeiro
dia do mundo,
com destino
ao princípio.
Embarcados,
navegamos
em elipse
dentro dela,
nossa nau,
nossa terra,
atraídos que somos
pela estrela,
viajando cada ano,
através
da solidão cósmica,
com destino
ao começo.
Ali renascemos,
de novo risonhas
crianças.
*


Santana de Parnaíba
31 de dezembro de 2011
NeyMaria Menezes

PREDIÇÃO

*
Imagem: via Facebook_página de arte

*

PREDIÇÃO


Acabava de dar-me conta
que estavam esquecidos
os nomes dos dias e
 respondia
só a evocações de luz
ou sombra; assim foi
quando ontem começou:
dessa simplicidade mesmo
era que nascia-me
então,
em tais extremos,
o compasso da música
constante, única,
o mais das vezes
manando em calma,
dado o desaparecimento
do que poderia vir
sem avisar,
exceto o vento.
Sibilando pelo alto
essa tal arrelia,
então
de inopino - quer fosse triste,
fosse resignado – sumiam
o nômade, o bambo,
o segregado; entrementes,
nem sendo justa,
se alastrava a simplicidade
pedinte do pouco, do mínimo,
ou ao menos
chocalhos vazios e
paredes nuas.
A música,
ausentes metais e
madeiras,
o vento,
parâmetros
e prazos
ausentes,
previam-me a marcha
do grandioso silêncio.
*


Santana de Parnaíba
30 de dezembro de 2011
NeyMaria Menezes
*






Imagem via página de arte no FB

sábado, 26 de novembro de 2011

HOJE NÃO, MAS SIM

*
Imagem:
foto de Oleg Duryagin

*


O tédio é
a cela que em pé
a pôs o mesmo, o mesmo
olhar fixo
no ponto em que o agora
pousa quieto e cai
rápido
 imobilizado
no porão do eterno.
 
Se visto desse ângulo
o que há
é um (d)efeito de ótica,
um delírio
que joga a catinga
em cima da relva
ao redor d'olho d'água e
abafa os rumores
e as bolhas em rodopios
pelo centro da cisterna.
 
Sendo assim,
nesse panorama mudo 
como oculto
de uma chaga gangrenada,
ao tão surdo
como cego
pela cascarra ilusória,
não que não
doa de fato,
mas por isso
urge o suor, o cuspe, 
o vômito, o tremor
convulsivo
ou o corte cirúrgico,
tudo para, 
o cianótico por asfixia,
 portão a fora
colocá-lo e, em seguida,
 imolar em rito purgatório.
 
Hoje não,
 mas sim logo mais,
então ir-se
para a sombra
da primeira infância
e a partir daí, dela
 emprestada, só viver
com essa memória
de efêmeros flashes
até que
ceda a febre,
colha flores,
até o pôr de pé
reencontro com o mito
 fundador.
**
Santana de Parnaíba
novembro2011
Ney Maria Menezes

 

domingo, 20 de novembro de 2011

PONTA À PONTA

*

*

Sobe o mar,
sobe se indo longe
 ao ponto de até
no céu entrar.
Dorme o barco
na ponta de lá.
 
*
Santana de Parnaíba
novembro2011
NeyMaria Menezes
*

CONTAR COMO PASSA O TEMPO

*

*


CONTAR COMO PASSA O TEMPO
 
As horas, como se sabe,
elas correm;
desde que penumbre
entre o chão
e o telhado,
por volta das seis da tarde
elas correm pelo dentro
do negrume afim de oferecerem
 à madrugada um começo;
daí depois,
quietas, deixam
ao galo o cantar a cada 
 sessenta passos do tempo,
até que tome cores a aurora;
então, ele, dono do alto galho,
desce e deixa
para o sino
proclamar, ao sexto toque,
um dia novo.
 
**
Santana de Parnaíba
novembro 2011
NeyMaria Menezes
*

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

REPETINDO O PROVISÓRIO

*
Imagem: cena de ArquivoX_série de TV

*


REPETINDO O PROVISÓRIO
 
A esquina, ao vira-la,
se encontrando as vistas
com as costas - mais a frente -
de um vestido,
 vinho ou roxo,
ao lado levando mala,
casaco e
um livro de bolso,
dali sendo
próxima
a moderna rodoviária,
sabe-se,
outra vez se está
deixando a cidade,
e quiça isto
dissesse que ficaria
hoje alguém sem companhia,
que um à menos
iria amanhã à escola,
ao cinema, ao trabalho,
ou quiça, sempre não iria.
Prosaico, não fosse
o incômodo sentimento
de hora da despedida,
o gosto, de novo,
de infinda distância.
 
**
Santana de Parnaíva
novembro 2011
NeyMaria Menezes
*

domingo, 13 de novembro de 2011

PIER PAOLO PASOLINI, TU...

*

*


PIER PAOLO PASOLINI, TU
...eras um bebê
quando destes o primeiro
dos teus berros,
destes começo ao teu choro,
deram causa ao teu ódio.
Pier
te foi nome,
uma pedra
te foi rosto.Escavaram-na
um a um de teus dias,
entretanto Paolo,
teus olhos permaneceram
pequeninas crianças
 circundadas de feridas
e, por conta mesmo disto,
 percebiam
"a idade dos pirilâmpos"
naqueles que contavam
mais com o vizinho
do que contavam as moedas.
Tuas chagas berrando
 pelas fitas cinematográficas
protagonizavam
a testemunha que aponta
para a espora odiosa
escarnando
um vencido por miséria,
um dorso domesticado,
um franzino de nascença.
Fosse eu atrás da câmera
tu serias
o adolescente a passeio
pelo campo,
vestirias um traje claro
e teu bebê levarias nos braços
para que não mais chorasses,
embora, soldado,
fosses poeta.
*
Santana de Parnaíba
novembro 2011
NeyMaria Menezes