quarta-feira, 16 de novembro de 2011

REPETINDO O PROVISÓRIO

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Imagem: cena de ArquivoX_série de TV

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REPETINDO O PROVISÓRIO
 
A esquina, ao vira-la,
se encontrando as vistas
com as costas - mais a frente -
de um vestido,
 vinho ou roxo,
ao lado levando mala,
casaco e
um livro de bolso,
dali sendo
próxima
a moderna rodoviária,
sabe-se,
outra vez se está
deixando a cidade,
e quiça isto
dissesse que ficaria
hoje alguém sem companhia,
que um à menos
iria amanhã à escola,
ao cinema, ao trabalho,
ou quiça, sempre não iria.
Prosaico, não fosse
o incômodo sentimento
de hora da despedida,
o gosto, de novo,
de infinda distância.
 
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Santana de Parnaíva
novembro 2011
NeyMaria Menezes
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domingo, 13 de novembro de 2011

PIER PAOLO PASOLINI, TU...

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Pier Paolo Pasolini_autoretrato

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PIER PAOLO PASOLINI, TU
...eras um bebê
quando destes o primeiro
dos teus berros,
destes começo ao teu choro,
deram causa ao teu ódio.
Pier
te foi nome,
uma pedra
te foi rosto.Escavaram-na
um a um de teus dias,
entretanto Paolo,
teus olhos permaneceram
pequeninas crianças
 circundadas de feridas
e, por conta mesmo disto,
 percebiam
"a idade dos pirilâmpos"
naqueles que contavam
mais com o vizinho
do que contavam as moedas.
Tuas chagas berrando
 pelas fitas cinematográficas
protagonizavam
a testemunha que aponta
para a espora odiosa
escarnando
um vencido por miséria,
um dorso domesticado,
um franzino de nascença.
Fosse eu atrás da câmera
tu serias
o adolescente a passeio
pelo campo,
vestirias um traje claro
e teu bebê levarias nos braços
para que não mais chorasses,
embora, soldado,
fosses poeta.
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Santana de Parnaíba
novembro 2011
NeyMaria Menezes

O POEMA INCLINADO

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Imagem:
foto de Malcolm, Hats Off Gentlrman It's Adequate

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Inclina-se
para o centro do campo
- só mais um pouco
e era em verdade branco -
e torna-se
uma escala de pétulas
caída à esquerda do que olha
e, enquanto sereno olha, começa
 a mover-se
em ondas sonoras o poema
vindo desd'o alto
através das dessemelhanças
- góticas curvas,
ora elípticas desconexas -
essas que se erguem
como flores no espaço e que
na harmonia submergem.
Abraça a rama
e desce, passo a passo
a modelar a boca
para que sorva
a pacífica glória visionada
a tal ponto que, daí,
seus versos possam refletir
 mesmo até os botões entreabertos.
 
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Santana de Parnaíba
novembro de 2011
NeyMaria Menezes
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